renascentistas ninjas

Publicado: 21/09/2018


Texto de Victor Geuer :

www.instagram.com/victor.geuer


Todos os seres extraordinários, seja por obra do destino ou acidente de percurso, têm uma origem. Contagiados por um passado cultural radiante ou contaminados por substâncias radioativas, os heróis mascarados e gênios sem foto 3x4 povoam nosso imaginário em um jogo lúdico em que relembramos a história ao reinventá-la (esse jogo entre ficção e realidade é o que verdadeiramente nos interessa aqui); um jogo de máscaras, literalmente. oO

Sendo assim, comecemos por uma descoberta ou, melhor, revelando identidades secretas: para quem desconhece ou nunca se deu conta, por trás das Tartarugas Ninjas (Leo, Donnie, Mikey e Raph) escondem-se os quatro maiores gênios do renascimento italiano :


- Leonardo di Ser Piero da Vinci;

- Donatello di Niccoló di Betto Bardi;

- Michelangelo di Lodovico Buonarroti Simoni;

- Rafael Sanzio.


O que finalmente explica a obsessão dos personagens por pizza, mas também suscita outras questões tão importantes quanto essa, então vamos à reflexão: seria essa sobreposição inusitada de identidades uma forma de valorização ou vulgarização cultural ?

Ambos os lados dessa questão podem ser melhor analisados a partir dos encontros e desencontros das ideias de três célebres pensadores da escola de Frankfurt: Theodor Adorno, Max Horkheimer e Walter Benjamin. Os dois primeiros, Adorno e Horkheimer, nos ajudam a pensar sobre o sistema econômico e social no qual nos inserimos e como nele produzimos consumimos cultura. Segundo eles, a Indústria Cultural visa a incitação constante ao consumo através da massificação de bens culturais que promovem a padronização de gostos e o consequente esvaziamento das dimensões contemplativas e significativas da arte e da cultura (1). Quando escutamos, por exemplo, a nona sinfonia de Beethoven como trilha sonora de espera em um elevador ou naqueles intermináveis minutos na linha do telefone. Ou seja, tal qual Beethoven preso e entregue ao papel de mero passatempo, nossa trupe de artistas, sequestrados por tartarugas mutantes, estariam sendo submetidos a um processo de descontextualização e banalização, transformados em fast food e souvenirs descartáveis.

Por outro lado, existe uma ambiguidade ao escondermos algo a olhos vistos, pois a máscara pode impedir que descubramos algo de imediato, mas deixa claro que lá existe algo a ser descoberto - e talvez Walter Benjamin tenha sido o primeiro pensador a perceber isso. Benjamin conclui que, na era da reprodução em massa, a obra de arte diluiria sua “aura” e seu valor de unicidade; sua originalidade daria lugar a um valor de exposição, presença na sociedade e acessibilidade (2). Certamente não se trata aqui de uma visão ingênua ou de uma forma de negação dos males e problemas dessa questão, o que nos permite abordar uma outra: será que, hoje em dia, teríamos o mesmo acesso ao legado desses gênios se não fosse a disseminação massiva de suas obras e história por meio das mais variadas mídias como livros, fotos, vídeos, memes e, porque não, camisetas ?


1 Dialética do Esclarecimento (1947)

2 A Obra de Arte na Era de sua Reprodutibilidade Técnica (1936)




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