A deslumbrante vida de Agnès Varda

Publicado: 26/04/2019


            O post de hoje é um texto de autoria de um convidado, o roterista e editor Hugo Prates de Sousa. Trata-se de uma retrospectiva da vida e obra da icônica cineasta Agnès Varda que faleceu recentemente deixando muitas saudades e um legado inestimável. 


                                                              


A deslumbrante vida de Agnès Varda

“Sempre luto contra a estupidez, inclusive a minha” – Agnès Varda


             O mundo da sétima arte está de luto profundo. Muitos diretores possuem um legado inquestionável, no entanto não é todo dia que se perde uma inspiração como Varda. Agnès Varda foi a única mulher a ganhar a Palma de Ouro honorária, foi a primeira diretora a ganhar o Oscar pelo conjunto da obra e em 2001 foi agraciada com o César pela sua carreira. Sua honestidade, dedicação e paixão tocaram milhares de pessoas, foi algo que passa de geração a geração e irá prosseguir muito além de nosso tempo. Ela experimentava com todos os estilos, era uma maga do som e da imagem e tinha uma visão muito livre e criativa de fazer cinema. O que a tornou uma lenda foi uma coisa teoricamente simples, mas que poucos fazem: fazer o que lhe vem à cabeça, custe o que custar e até o último suspiro. Otimista, mas nada ingênua, Agnès tinha um jeito único de retratar a humanidade, com pura paixão pelas pessoas e pela arte. Agnès Varda tinha um estilo original, seja com seu marcante movimento de pan acelerado ou com sua abordagem dos esquecidos. Era algo apaixonante. Aos 90 anos, ela morreu combatendo de modo zen seu tumor, sem jamais abrir mão do trabalho. Sério, como alguém pode odiar o trabalho dessa saudosa senhora?

             Dona Varda nasceu em Ixelles na Bélgica, no ano de 1928. Cresceu acompanhada de dois irmãos e duas irmãs, filha de Eugene Jean Varda e Christiane Varda. No ano de 1940, ela e a família se mudaram para o sul da França, sem muita escolha, já que a Segunda Guerra Mundial já assolava o território belga. Agnès estudou fotografia na École de Vaugirard e assim que se formou, pôde trabalhar como fotógrafa para Jean Vilar. Vilar era um renomado ator e diretor francês e, quando esse inaugurou o festival de teatro Avignon em 1948, os dois fizeram sua primeira colaboração. O resultado foi tão positivo que eles fizeram outra parceria no Théâtre National Populaire em Paris. Sua primeira exposição solo ocorreu anos depois, mais precisamente em 1954, uma exposição simples no pátio de sua casa. E 1954 foi realmente um ano marcante, pois sem nenhum treinamento formal, nem nada, Varda decidiu ser uma cineasta naquele mesmo ano. Ela fundou a cooperativa cinematográfica Ciné-Tamaris e produziu e dirigiu seu primeiro filme, “La Pointe Courte”, com apenas 27 anos. Essa produção foi que lhe garantiu a alcunha de “avó da Nouvelle Vague”, até porque não havia muita concorrência, pois ela era a única mulher do movimento.

            Com um corte de cabelo de bacia, normalmente em dois tons, às vezes até mais cores, a belga baixinha de altura, mas gigante de capacidade, produziu conteúdo cinematográfico por mais de meio século. Não há dúvidas que Agnès Varda se encontra entre as mais importantes, e melhores, diretoras de todos os tempos. Nesse grupo de elite, ela se destaca pelos seus filmes ficcionais e documentários que expõem facilmente a visão de mundo de sua realizadora. As imagens de enquadramento quase oníricos e sua narrativa singular guiam o expectador para tirarem suas próprias conclusões, que muitas vezes mudam a visão de mundo de quem aprecia uma obra de sua autoria.


“Eu não quero espionar a pessoa que eu filmo, eu quero ser sua amiga. Talvez eles não gostem de mim o suficiente, mas eu gosto bastante deles!” – Agnès Varda


            Suas obras sempre buscaram colocar as mulheres em foco e Agnès sempre se colocou como defensora dos direitos das mulheres e da igualdade de oportunidades. Suas produções, no entanto, não falavam apenas com o público feminino, mas com todos os tipos de pessoas. São filmes sobre vida, morte, humanidade e sexualidade. Tudo estava na mesa para Agnès Varda abordar.

            As mulheres que Agnès Varda filmou também foram uma forma dela mesmo se representar, como a própria Agnès diz nos comentários de seu filme de 1981, “Documenteur”: “Ela também foi um pouco eu.” Trata-se de uma lógica de representação e também de identificação como caminho para empatia e para solidariedade. O cinema de Agnès dedicado às mulheres é constituído a partir de uma proximidade ou de um desejo de aproximação. A cineasta mulher que filma outras mulheres também se filma, se coloca em cena e observa as dimensões de sua presença. Algo que foi fundamental na caracterização de “As praias de Agnès”, de 2008, e em seus demais trabalhos. Filmar, colocar a cara a tapa, também aparecer em seus próprios filmes em diversos momentos constitui uma dinâmica entre interior e exterior posta no filme de 2008 e que faz parte da sua reflexão identitária.


                                                            


            Agnès Varda tinha um método de storytelling que ela denominava de "cine-writing", com isso ela se declarava uma cinescritora. Para a cineasta, sua câmera captava palavras que surgiam ao mesmo tempo em que as imagens traçavam sobre o filme os impactos de sua experiência com o mundo. Agnès escrevia imagens e compunha uma escrita cheia de enigmas, em que o cinema é concebido como texto, como narrativa que traça suas próprias impressões. Seus longas projetam imagem, som, movimento e ritmo como se fossem texto. A diretora movia sua câmera tal qual uma caneta, escrevendo uma narrativa que mistura ficção e verdade por meio da imagem. Ou seja, o roteiro estava sempre em constante transformação, pois tudo que ela realizava influenciava a narrativa.

            Um evento marcante na vida de Agnès Varda foi seu casamento com Jacques Demy, conterrâneo de Nouvelle Vague da cineasta, em uma união que durou até a morte do mesmo em 1990. A artista teve dois filhos com o companheiro: Rosalie Varda e Mathieu Demy. Jacques sem dúvida foi o grande amor da vida de Agnès, o diretor/roteirista foi inspiração para o filme de 1991 “Jacquot de Nantes”. Esse longa retrata as recordações do falecido cônjuge da lendária cineasta, onde Agnés expressa nessa película toda sua dedicação e adoração para aquele que foi o grande companheiro de sua vida. A grande graça dessa produção são os relatos do próprio Demy no meio do docudrama, misturando perfeitamente a realidade e a ficção.


“Eu acho que era uma feminista antes de nascer. 

Eu tinha um cromossomo feminista em algum lugar” – Agnès Varda


            Acredito que um dos motivos que fizeram com que Varda fosse menos reconhecida que seus conterrâneos da Nouvelle Vague, além do olhar machista da história, foi justamente sua versatilidade. Ela não cismava apenas com um estilo ou um tema como Truffaut, Godard ou Bresson. Não havia limites para o que a eterna jovem iria abordar em suas obras, o que há tornava imprevisível, não muito comerciável e sem uma marca facilmente reconhecível. Sobre sua originalidade, ela era tanta que não é à toa que ela inspirou diretores mais famosos, como Ingmar Bergman. No famoso “Quando Duas Mulheres Pecam” (Persona) de Bergman, há muitas cenas parecidas com “La Pointe Courte”. Como genitora e crítica da Nouvelle Vague, Agnés Varda fez de suas ficções e documentários um retrato da complexidade humana. Críticos celebram sua independência e originalidade desde os primórdios e “Cléo das 5 às 7” só reafirmou o que era visível para qualquer um que apreciou algum de seus trabalhos, dando a cineasta sua merecida fama internacional.

            Ela era uma mestre e sua maior obra foi o longa “Cléo das 5 às 7” de 1962. Cléo, como a maioria de nós, está presa na rotina do dia a dia e fica obcecada com as coisas mais mundanas e inúteis. Porém, uma biópsia para saber se ela tem câncer ou não, muda tudo. O que acompanhamos a seguir não é um drama existencial, demônios interiores ou jornadas existencialistas... é uma mulher vivendo a vida plenamente, com um novo olhar. A perspectiva da morte faz ela apreciar como tudo é tão belo, de um jeito que só Agnès teria a sensibilidade para abordar. E quando chega o momento de encarar o resultado, Cléo está pronta para o que vier. Tudo isso é mostrado com uma fotografia magistral, que mesmo em preto e branco passam todo o calor da vida. É um filme que aborda os pequenos momentos do dia a dia e como o menor gesto pode mudar tudo. Algo tão simples, mas tão inspirador, que é a obra favorita de grandes artistas como Madonna e Angelina Jolie. Essa bela obra pode ser vista online no Cine Antiqua.


“Nunca fiz filmes políticos, simplesmente me mantive ao lado

dos trabalhadores e das mulheres”. – Agnès Varda


                                                                      


            Seus filmes envelheceram de maneira bem mais elegante que seus conterrâneos. Suas produções enfatizam seu amor pelo povo, ao contrário de seus companheiros de Nouvelle Vague que priorizam mais as ideias do que as pessoas. E é evidente que quando mais velha Agnès iria se reinventar novamente. Nos anos 2000 ela lançou o documentário “Os catadores e eu”, uma produção divertida e cheia de calor, mesmo sendo sobre um tema difícil, as pessoas que vivem dos restos dos ricos, os catadores de lixo no interior da França. E mesmo assim Agnès aborda o assunto sem manipulação ou dramaticidade artificial. Felizmente esse filme pode ser visto online pelo Facebook da própria produção, para conferir clique aqui.

            Varda produziu até o fim de sua jornada. Aos 89 anos ela se juntou ao jovem fotógrafo e muralista francês conhecido apenas como JR. Juntos, essa dupla deu origem ao singelo “Visages, Villages”. Nessa produção, os dois artistas viajam pelo interior da França, tirando fotos das pessoas comuns e colocando o desconhecido como a estrela de uma obra, fazendo fotos gigantes das mais diversas pessoas e colocando essas colossais figuras em lugares inusitados. Também vemos uma singela e verdadeira amizade se formando entre esses indivíduos tão inventivos e de diferentes gerações. É um road movie sentimental, destacando a história de pessoas esquecidas e em dificuldade financeira, obrigatório para qualquer amante do cinema.


“Envelhecer para mim não era uma condição, mas sim um tema” – Agnès Varda


                                                                   


            A partir de “Os catadores e eu”, o tema da falência do corpo frente ao tempo já era presente, pois como Varda deixa bem claro, o destino é inexorável. O gesto autobiográfico e de autorretrato de “As praias de Agnès” (2008) em si já se coloca como uma relação com o tempo e sua passagem que estimula um gesto de rememorar. Esses filmes são sobre o que Dona Varda gostaria que víssemos sobre ela, sobre a sua imagem e seu olhar lançado ao mundo, oferecendo às outras pessoas que ela gostaria que permanecesse.

            Engraçada, modesta, sábia e humana. Agnès tem garantido o lugar entre o panteão dos cineastas que marcaram a sétima arte. Sua vida foi um presente para toda a humanidade, seus filmes fizeram do invisível visível. Ela disse em uma entrevista para o The Guardian que gostaria de ser lembrada como uma cineasta que curtiu a vida, incluindo a dor que há nela. Em suas palavras:


“É um mundo tão terrível, mas eu mantenho a ideia de que todo dia deve ser interessante. O que

acontece nos meus dias – trabalhando, conhecendo pessoas, escutando – me convence de que

vale a pena estar viva.”.


            Que os Truffauts desse mundo me perdoem, “Cléo das 5 à 7” é, sem dúvidas, o melhor da Nouvelle Vague, e “Visages, Villages”, é o documentário mais instigante dos últimos anos. Entre os dois estão mais de cinquenta anos de cinema, reflexo da vida, e a personalidade extraordinária de Agnès Varda. Dona Varda fará muita falta. Ela ainda deixou um último presente para nós, seu filme póstumo “Varda by Agnès” irá aportar aos cinemas brasileiros em 2 de maio, reservem a data. Sobre sua última obra ela disse: “No filme você vê muitas pessoas que foram tão importantes para mim … Eu tenho que me preparar para dizer adeus e ir embora.”. E tenho certeza que ela soube se despedir. De qualquer modo, seus filmes seguirão nos ajudando a viver a vida como lanternas que brilham na escuridão.


“Não faço filmes sobre a burguesia, os ricos, a nobreza. Minha escolha foi mostrar pessoas que

são, de certa forma, mais comuns, e ver que cada uma delas tem algo de especial, interessante,

raro e bonito. Este é meu modo natural de olhar as pessoas.” - Agnès Varda

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