Entrevista com Carlos Ferreira (Quarto Sensorial)

Publicado: 27/05/2019




No post de hoje entrevistamos o músico, compositor e instrumentista Carlos Ferreira, guitarrista da banda Quarto Sensorial. Em vespera de lançamento do novo álbum com a o trio gaúcho, Ferreira fala sobre o cenário artistico atual, liberdade criativa e sobre o papel social da arte de hoje.


                                            

Carlos Feirreira no palco



Nos anos 70 Eric Clapton já comentava sobre as dificuldades de se levar a música instrumental a um público mais amplo. Na sua experiência enquanto compositor e instrumentista o público continua resistente ao gênero instrumental ou há sinais de mudança?


R: Acho que entendo o contexto sobre o qual o Clapton falava, mas em linhas gerais eu não concordo muito com isso. Quero dizer, talvez ele estivesse se referindo aos meios de distribuição que detinham o monopólio do mercado da música, não sei. Seja como for, acredito que hoje esta lógica já não procede, já que toda cadeia produtiva da música sofreu uma grande reviravolta com a chegada da Internet.

O que eu sempre condeno é a ideia de hierarquização cultural, como se houvesse uma "alta" e "baixa cultura". Muitas vezes o gênero instrumental acaba sendo colocado dentro de uma caixa de erudição e intelectualidade que só interessa a quem gosta de alimentar próprio ego ao invés dos ouvidos.



                                    

Albúm Quarto Sensorial 2009 Quarto Sensorial A + B 2012


Alguns artistas e críticos tem falado sobre a "morte da canção brasileira". Apesar de ser uma afirmação um tanto dramática, o senso comum parece reforçar que em relação às novas gerações a tradição "banquinho e violão", tão vinculada a importância da poesia e da palavra, vem perdendo espaço para outros estilos marcados pela rítmica dançante ou construção de climas adequados para os afazeres do dia a dia. Você também identifica esse fenômeno do "desgaste da palavra" na música nacional?


R: Não concordo de forma alguma. Só aqui no Rio Grande do Sul, para dar uma amostragem bastante específica, houveram pelo menos 3 discos lançados recentemente que me saltaram aos ouvidos justamente pela força poética - "Costuras Que Me Bordam Marcas na Pele", da Paola Kirst; "Em Frente", do Thiago Ramil; e "Percepção", do Poty.

Essa problemática talvez nasça de uma visão bastante tradicional e nostálgica com relação ao que seria a "verdadeira canção brasileira"... Voltamos um pouco ao assunto da primeira pergunta, com essa tentativa toda de elitizar as coisas. Qual o problema com os ritmos dançantes? E construir uma trilha sonora pra nossa vida cotidiana não é uma das coisas mais bonitas que podemos fazer com a música? Penso que cada época histórica abarca seus inúmeros processos de ruptura e re-significação de símbolos, e uma das características que eu identifico com maior clareza no que tem sido feito na música hoje é o total descompromisso com rótulos e gêneros fechados.



Na Humanus, propor diálogos entre o clássico e o pop é uma das estratégias que encontramos para promover a desconstrução de valores excludentes como o intelectualismo, o eruditismo e elitismos em geral. Um bom exemplo dessa abordagem é a estampa Beethoven, arte do designer e ilustrador Carlos André. O próprio Beethoven, sendo um ícone da criatividade transgressora já reforça este ponto, mas a composição do retrato com seus tons de laranja e elementos mecânicos ainda abre o trabalho para outras leituras ao sugerir links com o filme "Laranja Mecânica" de Stanley Kubrick. Você acredita que ao não se submeterem a rótulos e hierarquias arbitrárias os artistas e criadores contribuam para combater preconceitos enraizados na nossa cultura?


R: Sem dúvidas é um ponto de partida importante, e acredito que esse movimento de desconstrução precise de vários sujeitos. A hierarquização cultural sempre existiu, e ela surge já validada desde a origem, por marcadores preconceituosos de gênero, raça, etc. Por exemplo, quantas mulheres compositoras contemporâneas ao Beethoven nós conhecemos?  E mulheres cineastas contemporâneas ao Kubrick? Desta amostragem, quantas eram negras? Pra mim todas estas questões estão muito intimamente relacionadas. Hierarquizar é segregar, e pra mim isso é a morte de qualquer cultura. É a morte da espécie.

No mundo líquido de hoje (valeu, Bauman!) eu simplesmente não consigo mais ver espaço para esse tipo de coisa. A “nossa cultura” não é uma só - são várias: mutantes, multi-facetadas e, principalmente, orgânicas.



                                

                                                                 Halteroniilismo 2014                                     Quarto Sensorial + Fu_k the Zeitgeist - Frankenstein 2018

                                    


Ao acompanharmos seu perfil nas redes sociais, fica claro o quanto tu aprecia outras linguagens artísticas que não só a musical. Qual a influência da literatura, artes visuais, cinema e outras formas de arte nas tuas composições?


R: Penso que as coisas nunca estão separadas. Você pode ter uma ideia musical inspirada por um livro, por uma fotografia, por um filme, por algo que aconteceu no dia, por um som específico que chamou a atenção. Tudo influencia. Acho que fazer arte (seja lá o que for isso!) é estar com as antenas apontadas para o mundo ao redor. Expressão e impressão na mesma medida.


                         

O trio Quarto Sensorial (Bruno Vargas - Baixo, Martim Esteves - Bateria, Carlos Ferreira - Guitarra)



O nome "Quarto Sensorial" me remete a experimentação estética através de experiências multi sensoriais. O quanto tu diria que o conceito de "sinestesia" está presente na concepção dos álbuns da Quarto?


R: O tempo todo, ainda que não tenhamos isso explícito. Gosto de pensar em cores e imagens quando estou criando sons. A ausência de palavras na música instrumental também dá margem extra para uma interpretação abstrata e subjetiva das coisas.


Depois do abstracionismo lírico do A + B, da ironia filosófica do Halteroniilusmo e da magistral re-trilha para o clássico dos cinemas Frankenstein, o que podemos esperar neste novo trabalho?


R: Este disco carrega consigo uma perspectiva de "não pertencimento" com relação a muitas coisas que estão acontecendo ao nosso redor. Mais do que expressar uma dificuldade no ato de "se enquadrar", acho que ele é mais uma afirmação: "Não queremos nos enquadrar". Não é propriamente um álbum político, ao menos não na acepção da palavra, mas é impossível ficar indiferente a essa sensação de náusea que está no ar.

Musicalmente falando ele é um disco com composições mais curtas e agressivas do que os anteriores, instrumentação mais simples e com menos camadas de arranjo. Estamos atualmente em processo de mixagem, e muito entusiasmados com o rumo que as coisas estão tomando.


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