“Obstáculo para a remoção de obstáculos" - Vilém Flusser

Publicado: 07/06/2019




Texto de Víctor Geuer - Equipe Humanus.

                                                        

        

Vilém Flusser




“Obstáculo para a remoção de obstáculos”

- Vilém Flusser -


Ainda na década de 70, o filósofo tcheco Vilém Flusser soube antecipar muitos dos dilemas que enfrentamos hoje. De ascendência judaica, aos 19 anos Flusser se viu obrigado a deixar seu país após a invasão nazista, refugiando-se no Brasil, país onde viveria durante 30 anos. Neste período sob o clima  tropical, dentre muitos temas, dedicou-se a refletir sobre as relações entre o ser humano e a tecnologia, nos legando uma vasta produção que abrange em seu livre pensar campos como linguagem, comunicação, design e estética.


Em uma de suas obras mais influentes, O mundo Codificado - Por uma filosofia do design e da comunicação - 1972, Flusser define o conceito de “objeto” partindo de sua raiz etimológica (em latim, objectum; em grego, problema) como algo que está lançado no meio do caminho obstruindo o movimento. O mundo, diz o filósofo, na medida em que estorva, é objetivo, objetal, problemático.



                                                                      

O mundo Codificado - 1972


                                                                                   

Ou seja, em sua objetividade o mundo se impõem como obstáculo restritivo e limitador de nossas possibilidades, e sendo assim,  para seguir precisamos vencer alguns destes obstáculos transformando-os em “objetos de uso”, que nada mais são do que obstáculos que utilizamos para afastar outros obstáculos. Segundo Flusser, seria essa a contradição que constitui a chamada “dialética interna da cultura”, pois estes mesmos “objetos de uso” que outrora nos permitiram abrir caminho passam a interrompê-lo, primeiro, porque necessitamos deles para prosseguir, e, segundo, porque estão sempre no meio do caminho. Em outras palavras: quanto mais prosseguimos, mais a cultura se torna objetiva, objetal e problemática.  


Mas de onde vieram e para que estes objetos de uso foram lançados em nosso caminho? A resposta é simples, foram projetados, são produto da criatividade daqueles que nos precederam. Sendo assim, quando esbarramos em um destes objetos de uso, colidimos com o objetivo de outros, pois sendo estes resultado do projetar humano trazem em sua trajetória uma intenção, e neste sentido, objetos de uso são "mediações" entre mim e os outros, não são apenas objetivos, mas também intersubjetivos.



                                                          



A abordagem paradoxal de Flusser nos permite pensar sobre questões éticas atuais como sustentabilidade (ambiental e social), democracia,  liberdade e responsabilidade através de uma perspectiva reflexiva e não meramente prescriptiva. Desafia nossas certezas e juízos maniqueístas (obstáculos ao livre pensar) sem deixar-se paralisar pelo esgotamento criativo de uma “pedra no caminho” como versa Drummond. O legado Flusseriano afirma a potência criativa presente nas tensões e contradições que compõem a cultura humana, lembrando-nos que promessas fáceis não passam de obstáculos impotentes.


Para finalizar essa breve introdução ao pensamento Flusseriano, deixamos aqui uma interrogação:


Como podemos configurar nossos projetos de modo que os aspectos comunicativo, intersubjetivo e dialógico sejam mais enfatizados do que o aspecto objetivo, objetal, problemático?


Para Flusser, as respostas a essa questão podem contribuir para que futuramente criemos de maneira mais responsável, o que resultaria numa cultura em que os objetos de uso significariam cada vez menos obstáculos e cada vez mais veículos de comunicação entre as pessoas. Uma cultura, em suma, com um pouco mais de liberdade.


*O Mundo Codificado 1972, Vilém Flusser.

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